Saturday, September 20, 2008

De olhos abertos

Por que as coisas estavam dando tão erradas? César e Luísa não pareciam ser as mesmas pessoas que há menos de seis meses sorriam à toa por estarem finalmente em Londres, distante da precariedade e falta de perspectivas que viviam em São Paulo. As dificuldades encontradas, logo que lá chegaram, transformaram-nos. O romance vivido no Brasil diluiu-se em pouco tempo, pela falta de condições financeiras e dificuldades para encontrar trabalho. César era indolente e orgulhoso, negava-se a lavar pratos para sobreviver e passou a usar álcool e drogas para superar ou se conformar com sua desgraça. Luísa sentia-se suja por vender seu corpo para sobreviver. Tudo havia acontecido de repente, uma oportunidade inesperada, dinheiro fácil e lá estava ela, desrespeitando sua alma, seus princípios, em troca de algumas libras. Olheiras profundas marcavam seu rosto e não combinavam com seus cabelos dourados, cultivados com tanto cuidado durante anos. Ela não conseguia se olhar no espelho, já não sorria, já não chorava. César procurava ficar longe do lugar onde moravam. As crises de abstinência e a depressão não o deixavam pensar. Ao lado de Luísa, sentia-se desconfortável, por isso a evitava, não a tocava e desviava os olhos. Quando a encontrou, naquela manhã, foi frio e simplesmente disse, olhando para baixo:
-Tem dinheiro?
-Pouco, respondeu ela, enquanto tirava o soutien.
Passando pela mesa onde ele estava sentado, Luísa colocou algumas notas ao lado do prato de omelete que ele comia. Depois, sem olhar para trás, foi para o canto do pequeno cubículo onde se habituara a dormir desde que começara a trabalhar na madrugada. César pegou o dinheiro e dirigiu-se à porta, abrindo-a com energia. Precisava sair dali. Desceu a escadaria que dava para a rua e a passos largos foi para o café onde Tracy costumava ficar. Sabia que lá encontraria o que precisava. Pagou as anfetaminas que o galego mal encarado disponibilizava aos clientes da região e dirigiu-se ao balcão. Colocou todos comprimidos na boca e com uma dose única de conhaque engoliu-os rapidamente. Em seguida, foi para a rua e já na esquina viu o velho barbudo que fazia ponto naquele lugar. Era intrigante aquela figura com as roupas de baixo por cima das calças, pregando o fim do mundo com uma energia impressionante. César sentou no meio fio da calçada e ficou observando o profeta urbano que falava sobre o desprezo que tinha pela raça humana e pela própria existência. Já com as pupilas saltando dos olhos e com os dentes rangendo, foi tomado por uma força estranha que o obrigava a voltar para casa. Subiu as escadarias rapidamente, suas pernas pareciam flutuar e abriu a porta com a mesma energia que usara para fechá–la, horas atrás. Entrou e bateu a porta, seus olhos analisaram os quatro cantos do cômodo. Viu as fotos do Brasil, a omelete abandonada pela metade, o rádio quebrado e principalmente Luísa, que dormia profundamente. Observou-a por alguns segundos e caminhou em sua direção, agora com passos curtos e cautelosos. Sua respiração era pausada. César agachou-se ao lado do colchão e sussurrou:
-Eu te amava tanto...
Uma lágrima escorreu dos olhos inchados de César que penetravam em Luísa enquanto suas mãos envolviam o pescoço de sua companheira. Ele respirou profundamente e com um gesto brusco começou a apertar o pescoço da companheira. Ela abriu os olhos assustados, mas não esboçou nenhuma reação. Olhou para dentro dos olhos do homem que a tirara da casa dos pais, com a promessa de uma vida maravilhosa, com um misto de apreensão e raiva. Os dois trocaram um olhar profundo. Há tempo que não faziam isto. O momento durou uma eternidade, até o rosto de Luísa se apagar por completo. César levantou-se com a respiração ofegante, os olhos vermelhos afogados em lágrimas, dirigiu-se à janela. Abriu os braços e alçou vôo no espaço. Na calçada , um corpo inerte, sem rumo, fugitivo de si mesmo, como se procurasse onde se esconder, de tanto medo e delírio. De olhos abertos. .




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