Liberdade alcançada
O dia amanheceu sem cor. A noite deixara, atrás de si, marcas sombrias do pesadelo inacabado. Os ponteiros do relógio seguiam seu andar, impassíveis. Pronta para enfrentar o julgamento, eu sentia uma grande tensão, angústia, medo e desespero. O corpo gelado provocava tremores e o suor brotava com intensidade nas mãos e nas têmporas. Nunca estivera num lugar igual àquele. Nunca enfrentara situação igual àquela. Mas não estava só. Aos poucos fui sentindo o calor e a enrgia positiva da aura protetora que me envolvia. Reagi. Precisava resistir e ter coragem. Não via nada diante de mim, mas sabia que mil olhos e ouvidos estariam atentos. Atentos para julgar, atentos para compreender, atentos para perdoar. Tinha um grande compromisso pela frente. Sendo responsável e confiante na força que vem do alto, acreditava plenamente na atuação de meus defensores. Minha história, minha vida, meus segredos e meus medos, meu destino cruel e a tragédia que me envolvera inteiramente, anos atrás, seriam esmiuçados com detalhes, sem dó nem piedade. Estava pronta. Precisava me defender das acusações feitas contra mim, pois era inocente. Sou inocente. Com transparência, sinceridade e coragem quebrei o silêncio que emudecera minha voz por tanto tempo. Não deixei nenhum detalhe para trás. Uma frase martelava na minha cabeça, intensamente: "Aos elogios da turba preferimos os aplausos de nossa consciência". Era isto o que mais importava naquele momento. Se este lema iluminou minha vida desde a adolescência, ao terminar o curso ginasial, precisava aproveitar sua luz para clarear aqueles momentos cruciais. Consegui. Depois de todas as declarações feitas, estava com a consciência tranquila. Mas precisava esperar. E doze horas se passaram. Lentas como um século. Descompassadas e inquietantes. Até que o julgamento terminou, finalmente. O juiz pronunciou a palavra esperada: "ABSOLVIDA". Doeu, doeu... Chorei, chorei... Sofri, sofri...Resisti, resisti... Sobrevivi. Renasci. Estou livre. Estou livre. Obrigada , meu Deus.
