Champagne
Pedi um café expresso e uma quiche de brócolis à garota que logo se afastou, sem antes dirigir-me um sorriso que me pareceu conhecido. Fazia frio e enrosquei-me ao grosso casaco, agarrado às pressas antes de sair, para enfrentar a súbita virada de temperatura, coisa que não surpreendia ninguém, naquela época do ano, com tantas oscilações meteorológicas. Lá fora, o vento sibilava entre carros que abriam caminho com os faroletes ligados, disputando o espaço de luz deixado pelo tênue entardecer. Hora de voltar para casa, acender a lareira e aguardar a noite que prometia geada. Antes disto, retornar ao porto de minhas lembranças. Aqui me sinto bem. Respiro fundo e me entra pelas narinas o cheiro gostoso de café, misturado ao inconfundível cheiro dos livros distribuídos pelas inúmeras prateleiras: Literatura, Artes, Ciências, Psicologia e tantos outros. Lançamentos e releitura dos clássicos. Fizera a escolha. Tchekov e suas shortstories me aguardam sobre a mesa de número 7. Contos e poesias fazem minha cabeça desde que comecei a fazer Oficina. A Livraria Café e Leitura está bem servida para gastrônomos e intelectuais da minha velha cidade. Sobre as mesas, dispersos, exemplares de revistas, jornais e fascículos semanais são devorados avidamente pelos olheiros de notícias, indiferentes ao que se passa à sua volta. O vai-vem da porta de entrada dá passagem a homens, mulheres e jovens que entram e saem do espaço cultural, envoltos em seus agasalhos e xales coloridos. Uma lufada de ar frio obriga-me a trocar de mesa. Escolhi uma mesa no canto e meus passos foram acompanhados por olhares indiferentes e desconhecidos. O pedido estava demorando, folheei aleatoriamente Tchekov. “Um claro dia de inverno... O frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante”. O cotidiano da Rússia, em pinceladas rápidas, com efeitos de rara beleza. Seria um bom começo para meu texto/conto da próxima semana. Tudo na vida tem o a e o z. Permanecesse do outro lado, teria perdido a história, teria perdido meu tempo, ciscando as minhas próprias dores. Minha atenção voltou-se para a conversa do casal sentado ao lado. Escutei perfeitamente quando ele disse meu nome: Laura. Ela voltou.
Estão falando de mim. Fantasmas aparecem para não deixar a solidão e o medo sozinhos.
Pensara que estando fora da cidade durante tantos anos, aquela história cairia no esquecimento. Ledo engano. Ela estava viva e era motivo de conversa em mesa de bar. Vulgaridade. Entre uma bicadinha no café tinindo e o degustar da quiche, deixei-me levar pela nova versão do fato. Os momentos mais intensos fazem parte da memória das pessoas e tornam-se refúgios nostálgicos do pensamento ao qual se apela quando se quer repassar o filme. Cópia pirata de um preto e branco em mau estado de conservação. Noutros tempos, o preferido, aquele sucesso de bilheteria. Agora, nem tanto. A verdade nunca viera à tona. Laura, menina/mulher, conhecera o amor de maneira intempestiva e inesperada. .Em seu cismar, sozinha, à noite, pensava e sentia coisas. Mas achava que não vivia o suficiente para tudo sentir. Os desejos despertados pelo corpo em brasa ofuscavam-lhe a razão e os sentidos. Nada ao redor. Apenas a noite estrelada, ela e ele deitados no fundo do quintal de sua casa. Na imensidão de cada olhar, no toque da pele lisa e quente, a busca e o encontro do prazer. Dedos passeando pelo seu corpo, cintura, umbigo, sol no centro do universo a pulsar. Seu universo particular, então compartilhado. Sussurros e gemidos, corpos impregnados pelo suor do amor. Amor proibido, que o tempo transformara num fantasma. Logo agora que nem medo nem solidão podiam fazer parte de sua vida. Ela fora feliz, do jeito que podia ser. Nos primeiros tempos, não fora fácil esconder a atração que sentira por aquele homem, de compleição austera, bigode e têmporas prateadas que lhe davam um charme irresistível. Não entendera qual a química instilada em seu ser que a deixara cega, surda e muda para viver a realidade do mundo ao seu redor. Feromônio puro de ambas as partes. Ele fora o sonho que vagava em sua cabecinha estouvada. Seus olhares concupiscentes e as tórridas investidas despertaram nela aquela paixão, acendendo labaredas no lenho condutor da seiva bruta. Quando os corpos entraram em perfeita sincronia, foram descobertos por quem de direito e por lei podia contestar. Pivô da história, Laura carregou consigo as pedras de seu arrependimento, de sua ingenuidade e, somente algumas estrelas cadentes testemunharam sua fuga para outro mundo. De lá, ela prometera a si mesma, nunca mais voltar.
A conversa do casal continuou por mais algum tempo, mas eu não queria saber de mais nada. Precisava de uma bebida mais forte do que aquele café.

1 Comments:
Fazia tempo que não lia assim... com tanto prazer!Divino!!!
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