Saturday, September 20, 2008

Quem sabe?

Devem ter achado estranho que meu blog mudou de cara...

Depois de fazer Oficina de Contos , decidi atrever-me a publicá-los, aos poucos, no meu bloguinho...

Terei coragem para tentar um salto maior?

Todo ano, ao aproximar-se mais uma edição da FEIRA DO LIVRO sinto cócegas nos dedos e corro ao computador para escrever novos contos, crônicas, poemas e outras baboseiras que há tempo estou guardando a sete chaves, nos meus arquivos...

Sei que muitos outros aspirantes a "escritor" fazem o mesmo.

Não é fácil. Os desafios são muitos. Penso cá com meus botões: realizarei este sonho algum dia?

Quem sabe...



Champagne

Pedi um café expresso e uma quiche de brócolis à garota que logo se afastou, sem antes dirigir-me um sorriso que me pareceu conhecido. Fazia frio e enrosquei-me ao grosso casaco, agarrado às pressas antes de sair, para enfrentar a súbita virada de temperatura, coisa que não surpreendia ninguém, naquela época do ano, com tantas oscilações meteorológicas. Lá fora, o vento sibilava entre carros que abriam caminho com os faroletes ligados, disputando o espaço de luz deixado pelo tênue entardecer. Hora de voltar para casa, acender a lareira e aguardar a noite que prometia geada. Antes disto, retornar ao porto de minhas lembranças. Aqui me sinto bem. Respiro fundo e me entra pelas narinas o cheiro gostoso de café, misturado ao inconfundível cheiro dos livros distribuídos pelas inúmeras prateleiras: Literatura, Artes, Ciências, Psicologia e tantos outros. Lançamentos e releitura dos clássicos. Fizera a escolha. Tchekov e suas shortstories me aguardam sobre a mesa de número 7. Contos e poesias fazem minha cabeça desde que comecei a fazer Oficina. A Livraria Café e Leitura está bem servida para gastrônomos e intelectuais da minha velha cidade. Sobre as mesas, dispersos, exemplares de revistas, jornais e fascículos semanais são devorados avidamente pelos olheiros de notícias, indiferentes ao que se passa à sua volta. O vai-vem da porta de entrada dá passagem a homens, mulheres e jovens que entram e saem do espaço cultural, envoltos em seus agasalhos e xales coloridos. Uma lufada de ar frio obriga-me a trocar de mesa. Escolhi uma mesa no canto e meus passos foram acompanhados por olhares indiferentes e desconhecidos. O pedido estava demorando, folheei aleatoriamente Tchekov. “Um claro dia de inverno... O frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante”. O cotidiano da Rússia, em pinceladas rápidas, com efeitos de rara beleza. Seria um bom começo para meu texto/conto da próxima semana. Tudo na vida tem o a e o z. Permanecesse do outro lado, teria perdido a história, teria perdido meu tempo, ciscando as minhas próprias dores. Minha atenção voltou-se para a conversa do casal sentado ao lado. Escutei perfeitamente quando ele disse meu nome: Laura. Ela voltou.
Estão falando de mim. Fantasmas aparecem para não deixar a solidão e o medo sozinhos.
Pensara que estando fora da cidade durante tantos anos, aquela história cairia no esquecimento. Ledo engano. Ela estava viva e era motivo de conversa em mesa de bar. Vulgaridade. Entre uma bicadinha no café tinindo e o degustar da quiche, deixei-me levar pela nova versão do fato. Os momentos mais intensos fazem parte da memória das pessoas e tornam-se refúgios nostálgicos do pensamento ao qual se apela quando se quer repassar o filme. Cópia pirata de um preto e branco em mau estado de conservação. Noutros tempos, o preferido, aquele sucesso de bilheteria. Agora, nem tanto. A verdade nunca viera à tona. Laura, menina/mulher, conhecera o amor de maneira intempestiva e inesperada. .Em seu cismar, sozinha, à noite, pensava e sentia coisas. Mas achava que não vivia o suficiente para tudo sentir. Os desejos despertados pelo corpo em brasa ofuscavam-lhe a razão e os sentidos. Nada ao redor. Apenas a noite estrelada, ela e ele deitados no fundo do quintal de sua casa. Na imensidão de cada olhar, no toque da pele lisa e quente, a busca e o encontro do prazer. Dedos passeando pelo seu corpo, cintura, umbigo, sol no centro do universo a pulsar. Seu universo particular, então compartilhado. Sussurros e gemidos, corpos impregnados pelo suor do amor. Amor proibido, que o tempo transformara num fantasma. Logo agora que nem medo nem solidão podiam fazer parte de sua vida. Ela fora feliz, do jeito que podia ser. Nos primeiros tempos, não fora fácil esconder a atração que sentira por aquele homem, de compleição austera, bigode e têmporas prateadas que lhe davam um charme irresistível. Não entendera qual a química instilada em seu ser que a deixara cega, surda e muda para viver a realidade do mundo ao seu redor. Feromônio puro de ambas as partes. Ele fora o sonho que vagava em sua cabecinha estouvada. Seus olhares concupiscentes e as tórridas investidas despertaram nela aquela paixão, acendendo labaredas no lenho condutor da seiva bruta. Quando os corpos entraram em perfeita sincronia, foram descobertos por quem de direito e por lei podia contestar. Pivô da história, Laura carregou consigo as pedras de seu arrependimento, de sua ingenuidade e, somente algumas estrelas cadentes testemunharam sua fuga para outro mundo. De lá, ela prometera a si mesma, nunca mais voltar.
A conversa do casal continuou por mais algum tempo, mas eu não queria saber de mais nada. Precisava de uma bebida mais forte do que aquele café.

Mudança de programa

Como era de praxe, nas quartas-feiras Lucas passava a tarde com vovó Cacá. Uma incumbência prazerosa para ela, pois saía da rotina. Depois da morte do marido mudara-se para Porto Alegre, pois entendia que a vida na capital poderia ser mais interessante, apaixonada que era por espetáculos culturais, cinema, teatro e concertos, que não perdia por nada deste mundo. A leitura e a Internet também a absorviam quando se dava o tempo de permanecer em seu cantinho.Desde então, a paz e a tranqüilidade eram uma constante em sua vida. Até chegar quarta-feira... Lucas se fazia anunciar como previsão do tempo: Vem aí um furacão.
Naquela tarde, o menino chegou carregando a mochila, inadequada em tamanho e volume para sua idade, 10 anos e entrou de supetão no apartamento. Jogando-a como quem se desfaz de dois pesados halteres, foi logo dizendo:
-Vovó Cacá, hoje temos uma pesquisa cabeluda para fazer.
-Temos?
-Sim, acho que podes me ajudar, pois no último trabalho que apresentei na escola, tirei a nota máxima.
-Então, tiramos, pois naquela tarde fiquei plantada em cima do computador o tempo todo, dando dicas para tuas descobertas na Web.
-Então, é por isto que preciso de tua ajuda.
-Ok,querido. Depois do almoço faremos teu trabalho.Teremos tempo suficiente e ainda preparei uma surpresa.
-Surpresa? O que é? Conta.
-Então não será surpresa. Espera e verás.
Aquela quarta-feira não foi somente pesquisa, trabalho ou surpresa programados. Foi, isto sim, uma grande aventura.
Depois do almoço e da sobremesa preferida, mãos à obra.
Livros espalhados pelo chão, folhas avulsas e figuras de reptis enormes, lagartos terríveis. O tema de casa seria uma epopéia.
Do consciente para o inconsciente, do real para o imaginário ou ficção, quem pode avaliar a energia de um garoto que acorda de madrugada para ir à escola, passa a manhã, atento, escutando os blá, blá,blá de professoras em greve pelo melhor salário, participa das aulas de educação física, joga futebol com os amigos e ainda precisa fazer as tarefas em casa, sem tempo para uma paradinha legal? E vovó sabe disto. Então organiza programas diferentes nas quartas-feiras... Programas de lazer, lanches especiais, surpresas que vão além da conta...E neste frigir de ovos, faz-se uma omelete gustativa de satisfação, lazer, dever e aprender, sem esquecer a pitadinha de carinho e amor. Num abrir e fechar dos olhos, tudo acontece.
A expedição fez uma parada na clareira da floresta e o garoto aproveitou para deixar sua mochila ao lado do arbusto.Enquanto os companheiros descansavam, saiu de mansinho. Tinha uma missão importante a fazer. Era a hora esperada. Embrenhou-se na mata, com certo cuidado, cortando com o facão galhos e plantas espinhentas que lhe obstruíam o caminho. Caminhou, caminhou e mais andava, mais escuro e misterioso ficava o terreno onde medravam árvores gigantescas. O suor brotava em suas têmporas. A roupa se encharcara completamente. Seria o efeito do medo que dele se apoderara repentinamente? Ou seria resultado do calor úmido e sufocante daquele lugar estranho, onde não soprava brisa qualquer? A copa das árvores era um imenso guarda-chuva negro, que não deixava passar nenhum raio de sol. Um som forte, estridente, um grunhido estremecedor, como trovão, fez-se no ar propagando-se pela floresta adentro. “Coragem, pra que te quero, força, por que me faltas?” Um dinossauro fantasmagórico, gigantesco, talvez com mais de cinco metros de altura estava diante dele, com a bocarra aberta, pronta para devorá-lo. O valente desbravador não tinha outra opção. Ergueu a única arma de defesa que levara junto e fechou os olhos. Um calor gostoso escorreu-lhe pelas pernas. Seus olhos do entardecer se abriram e fecharam várias vezes, assustados. A bocarra continuava aberta para o ataque mortal.
-Acorda, Lucas, tua pesquisa não terminou.
Ele estava apavorado, pois o dinossauro ainda estava lá, na tela da TV. Esta era a surpresa de vovó Cacá. Ela fizera a locação do Jurassic Park para aquela tarde. Não imaginara que o tema principal da pesquisa do neto seria sobre dinossauros e muito menos estava preparada para lavar o sofá. Adeus paz e tranqüilidade.

No limite

Enquanto espero, fico aqui mesmo.
No limite onde acaba a calçada e começa a rua.
Ao meu lado outros também esperam.
Sinto o vento me arranhar de leve.
Vejo olhos que fitam o nada, como eu.
Escuto sons que cortam a quietude da noite,
enquanto o vai-e-vem dos carros enfeita a paisagem singular.
Neste momento, uma buzina sonora desperta pensares e pensantes.
Sinto-me bem e percebo que existo.
Sei que estou viva. Sinto meu corpo.
Estou no limite de mim mesma.
Fico aqui, enquanto espero.
Por nada.

De olhos abertos

Por que as coisas estavam dando tão erradas? César e Luísa não pareciam ser as mesmas pessoas que há menos de seis meses sorriam à toa por estarem finalmente em Londres, distante da precariedade e falta de perspectivas que viviam em São Paulo. As dificuldades encontradas, logo que lá chegaram, transformaram-nos. O romance vivido no Brasil diluiu-se em pouco tempo, pela falta de condições financeiras e dificuldades para encontrar trabalho. César era indolente e orgulhoso, negava-se a lavar pratos para sobreviver e passou a usar álcool e drogas para superar ou se conformar com sua desgraça. Luísa sentia-se suja por vender seu corpo para sobreviver. Tudo havia acontecido de repente, uma oportunidade inesperada, dinheiro fácil e lá estava ela, desrespeitando sua alma, seus princípios, em troca de algumas libras. Olheiras profundas marcavam seu rosto e não combinavam com seus cabelos dourados, cultivados com tanto cuidado durante anos. Ela não conseguia se olhar no espelho, já não sorria, já não chorava. César procurava ficar longe do lugar onde moravam. As crises de abstinência e a depressão não o deixavam pensar. Ao lado de Luísa, sentia-se desconfortável, por isso a evitava, não a tocava e desviava os olhos. Quando a encontrou, naquela manhã, foi frio e simplesmente disse, olhando para baixo:
-Tem dinheiro?
-Pouco, respondeu ela, enquanto tirava o soutien.
Passando pela mesa onde ele estava sentado, Luísa colocou algumas notas ao lado do prato de omelete que ele comia. Depois, sem olhar para trás, foi para o canto do pequeno cubículo onde se habituara a dormir desde que começara a trabalhar na madrugada. César pegou o dinheiro e dirigiu-se à porta, abrindo-a com energia. Precisava sair dali. Desceu a escadaria que dava para a rua e a passos largos foi para o café onde Tracy costumava ficar. Sabia que lá encontraria o que precisava. Pagou as anfetaminas que o galego mal encarado disponibilizava aos clientes da região e dirigiu-se ao balcão. Colocou todos comprimidos na boca e com uma dose única de conhaque engoliu-os rapidamente. Em seguida, foi para a rua e já na esquina viu o velho barbudo que fazia ponto naquele lugar. Era intrigante aquela figura com as roupas de baixo por cima das calças, pregando o fim do mundo com uma energia impressionante. César sentou no meio fio da calçada e ficou observando o profeta urbano que falava sobre o desprezo que tinha pela raça humana e pela própria existência. Já com as pupilas saltando dos olhos e com os dentes rangendo, foi tomado por uma força estranha que o obrigava a voltar para casa. Subiu as escadarias rapidamente, suas pernas pareciam flutuar e abriu a porta com a mesma energia que usara para fechá–la, horas atrás. Entrou e bateu a porta, seus olhos analisaram os quatro cantos do cômodo. Viu as fotos do Brasil, a omelete abandonada pela metade, o rádio quebrado e principalmente Luísa, que dormia profundamente. Observou-a por alguns segundos e caminhou em sua direção, agora com passos curtos e cautelosos. Sua respiração era pausada. César agachou-se ao lado do colchão e sussurrou:
-Eu te amava tanto...
Uma lágrima escorreu dos olhos inchados de César que penetravam em Luísa enquanto suas mãos envolviam o pescoço de sua companheira. Ele respirou profundamente e com um gesto brusco começou a apertar o pescoço da companheira. Ela abriu os olhos assustados, mas não esboçou nenhuma reação. Olhou para dentro dos olhos do homem que a tirara da casa dos pais, com a promessa de uma vida maravilhosa, com um misto de apreensão e raiva. Os dois trocaram um olhar profundo. Há tempo que não faziam isto. O momento durou uma eternidade, até o rosto de Luísa se apagar por completo. César levantou-se com a respiração ofegante, os olhos vermelhos afogados em lágrimas, dirigiu-se à janela. Abriu os braços e alçou vôo no espaço. Na calçada , um corpo inerte, sem rumo, fugitivo de si mesmo, como se procurasse onde se esconder, de tanto medo e delírio. De olhos abertos. .




Compasso

Gostava de sentir,
pra que negar,
as raízes dos teus dedos
a crescer no meu corpo.

Novas sensações,
emoções novamente
acesas,
na pele o arrepio e a dor de um ferro em brasa,
que trespassava,
cíclico, compassado,
no tempo em que éramos felizes, genuínos,
loucos...

Sunday, September 07, 2008

Uma resposta...

Descobri , hoje, que não sou falante e discursiva pela própria natureza...
na verdade, tenho usado um escudo protetor, carapuça velada para esconder meus temores e inseguranças. Isto já vem de longa data.No fundo, no fundo mesmo, sou tímida e calada. Desde criança as feras adormecidas dentro de mim foram sendo amestradas , impedindo que a libardade procurada não viesse à tona...
passaram muitos sóis e muitas luas para que o novo dia viesse à tona, depois de estar imerso sob um turbilhão de tempestadas incontroláveis... eis-me aqui... outra vez...