Como era de praxe, nas quartas-feiras Lucas passava a tarde com vovó Cacá. Uma incumbência prazerosa para ela, pois saía da rotina. Depois da morte do marido mudara-se para Porto Alegre, pois entendia que a vida na capital poderia ser mais interessante, apaixonada que era por espetáculos culturais, cinema, teatro e concertos, que não perdia por nada deste mundo. A leitura e a Internet também a absorviam quando se dava o tempo de permanecer em seu cantinho.Desde então, a paz e a tranqüilidade eram uma constante em sua vida. Até chegar quarta-feira... Lucas se fazia anunciar como previsão do tempo: Vem aí um furacão.
Naquela tarde, o menino chegou carregando a mochila, inadequada em tamanho e volume para sua idade, 10 anos e entrou de supetão no apartamento. Jogando-a como quem se desfaz de dois pesados halteres, foi logo dizendo:
-Vovó Cacá, hoje temos uma pesquisa cabeluda para fazer.
-Temos?
-Sim, acho que podes me ajudar, pois no último trabalho que apresentei na escola, tirei a nota máxima.
-Então, tiramos, pois naquela tarde fiquei plantada em cima do computador o tempo todo, dando dicas para tuas descobertas na Web.
-Então, é por isto que preciso de tua ajuda.
-Ok,querido. Depois do almoço faremos teu trabalho.Teremos tempo suficiente e ainda preparei uma surpresa.
-Surpresa? O que é? Conta.
-Então não será surpresa. Espera e verás.
Aquela quarta-feira não foi somente pesquisa, trabalho ou surpresa programados. Foi, isto sim, uma grande aventura.
Depois do almoço e da sobremesa preferida, mãos à obra.
Livros espalhados pelo chão, folhas avulsas e figuras de reptis enormes, lagartos terríveis. O tema de casa seria uma epopéia.
Do consciente para o inconsciente, do real para o imaginário ou ficção, quem pode avaliar a energia de um garoto que acorda de madrugada para ir à escola, passa a manhã, atento, escutando os blá, blá,blá de professoras em greve pelo melhor salário, participa das aulas de educação física, joga futebol com os amigos e ainda precisa fazer as tarefas em casa, sem tempo para uma paradinha legal? E vovó sabe disto. Então organiza programas diferentes nas quartas-feiras... Programas de lazer, lanches especiais, surpresas que vão além da conta...E neste frigir de ovos, faz-se uma omelete gustativa de satisfação, lazer, dever e aprender, sem esquecer a pitadinha de carinho e amor. Num abrir e fechar dos olhos, tudo acontece.
A expedição fez uma parada na clareira da floresta e o garoto aproveitou para deixar sua mochila ao lado do arbusto.Enquanto os companheiros descansavam, saiu de mansinho. Tinha uma missão importante a fazer. Era a hora esperada. Embrenhou-se na mata, com certo cuidado, cortando com o facão galhos e plantas espinhentas que lhe obstruíam o caminho. Caminhou, caminhou e mais andava, mais escuro e misterioso ficava o terreno onde medravam árvores gigantescas. O suor brotava em suas têmporas. A roupa se encharcara completamente. Seria o efeito do medo que dele se apoderara repentinamente? Ou seria resultado do calor úmido e sufocante daquele lugar estranho, onde não soprava brisa qualquer? A copa das árvores era um imenso guarda-chuva negro, que não deixava passar nenhum raio de sol. Um som forte, estridente, um grunhido estremecedor, como trovão, fez-se no ar propagando-se pela floresta adentro. “Coragem, pra que te quero, força, por que me faltas?” Um dinossauro fantasmagórico, gigantesco, talvez com mais de cinco metros de altura estava diante dele, com a bocarra aberta, pronta para devorá-lo. O valente desbravador não tinha outra opção. Ergueu a única arma de defesa que levara junto e fechou os olhos. Um calor gostoso escorreu-lhe pelas pernas. Seus olhos do entardecer se abriram e fecharam várias vezes, assustados. A bocarra continuava aberta para o ataque mortal.
-Acorda, Lucas, tua pesquisa não terminou.
Ele estava apavorado, pois o dinossauro ainda estava lá, na tela da TV. Esta era a surpresa de vovó Cacá. Ela fizera a locação do Jurassic Park para aquela tarde. Não imaginara que o tema principal da pesquisa do neto seria sobre dinossauros e muito menos estava preparada para lavar o sofá. Adeus paz e tranqüilidade.