CICATRIZ
Relembrar fatos marcantes de nossa vida pressupõe uma volta ao passado, que muitas vezes evitamos fazer. Talvez porque a memória já esteja um pouco fraca, ou porque não queremos realmente trazer à tona fatos e experiências vividas que nos desagradam, nos entristecem, nos fazem sofrer. Mas então por que não buscar no recôndito de nossas lembranças aqueles fatos que nos fizeram felizes? Afinal a vida não é um mar de rosas. Existem os espinhos que ferem, machucam, sangram Mas a beleza que elas espalham, o perfume que delas emana, a perfeição de seus matizes enfeitam os jardins de nossa existência. Somos seres humanos com inúmeras possibilidades de viver a vida com otimismo, sem nos deixar abater pelas decepções e imprevistos que nos pegam de surpresa. Carregamos esta bagagem vivencial tentando colocá-la em compartimentos distintos: sonhos alcançados ou desfeitos, sucesso nas expectativas ou frustrações amargas, amores ou desamores, risos ou lágrimas, alegrias ou aflições. Então como pesar os caixotes, tão cuidadosamente separados, mas tão intimamente relacionados entre si? O que pesa mais na balança: nossas alegrias ou nossas tristezas?
Chega o momento em que nos é solicitado relembrar um fato marcante da infância. São tantos e tão distantes... Na busca rápida e instantânea, vem à mente, a lembrança da menina peralta e precoce para seus quatro aninhos, cheia de cuidados da mãe, grávida de sua irmã caçula. Mesmo sendo a menorzinha da casa, ela tinha ciúme dos dois irmãos mais velhos e experientes, que aprontavam a mais não poder.
Naquele dia, em visita ao dono da marcenaria, as crianças faziam das suas, movimentando manivelas, serras circulares, plainas e outros utensílios existentes no galpão. Como costumava fazer, Cathy (vamos assim chamá-la), enxerida nas brincadeiras da gurizada, não resistiu à curiosidade e enfiou o dedinho em um pequeno orifício que repentinamente se fez em uma das furadeiras de bancada. A lâmina afiada fechou e... Ai!Ai!Ai!
Era o que faltava, mas não o que se esperava.
Um jato de sangue borrifou tudo ao redor e os gritos não cessavam. A dor, insuportável. Correrias. A mãe, em passos trôpegos, pois a gravidez já estava completando seus dias, levou a menina ao plantão de urgência. O pai, agitado, esbravejava: “Esta menina deveria levar uma surra pelas artes que sempre faz.” Depois de feito o curativo, o indicador mais parecia um porongo amarelado. Assustada, a mãe negara-se a entrar na sala cirúrgica, pois seu estado não lhe permitia tal emoção. Mas a emoção foi sentida e com mais intensidade quando viu a menina com o dedo enfaixado. Perguntou em tom de inquietação: “O teu dedo está inteirinho, filha?”. Com lágrimas nos olhos, a menina, mesmo sentindo tanta dor, respondeu com malícia: “Não, mamãe, está faltando a pontinha dele.”
Pra quê. A reação foi imediata. “E agora, meu Deus, minha filha não poderá estudar piano, e este era o meu maior sonho!”. Voltando à sala, perguntou ao médico como estava o dedinho da menina, se havia perdido parte dele, e blá, blá, blá. O médico, percebendo a aflição da mãe, acalmou-a, garantindo que o dedo estava perfeito, apenas um profundo corte afetara a extremidade, mas o tempo se encarregaria de sarar o dodói.
Ficou a cicatriz. Uma profunda cicatriz no indicador direito que felizmente não impediu que ela estudasse piano. A partir deste momento, percebe que as lembranças ficaram mais nítidas, claras e palpáveis, tanto que percebe a formação rugosa em seu dedo. Apesar de tudo, ela conseguira concluir a Graduação no Curso de Música Instrumental, que oportunizou-lhe participar de inúmeros concertos. A cicatriz não prejudicara aqueles dedos ágeis na execução dos acordes musicais executados. Não faltaram aplausos, e estes sim, o tempo abafara inexoravelmente.
Neste instante, ela sentiu um misto de saudades. De sua infância, de sua mãe querida cujo sonho de tocar piano fora concretizado plenamente por ela , apesar da cicatriz.





