Saturday, November 27, 2004

Divagações de sábado à tarde

Ah! As tardes de sábado costumam ser o hífen dos meus dias... Se me entrego ao dolce farniente, sinto-me inútil. Então furungo daqui e mexo dali para encontrar o que fazer. A maior parte das pessoas encara a tarde sabatina como um parênteses da semana, pois livrando-se dos compromissos rotineiros, procura sair do estresse e descansa a mais não poder. Uma espécie de pausa para refrescar, visto que os "embalos de sábado à noite", com certeza, exigirão novas forças. Se tal não for resgatado, será mais um findi desperdiçado. Não consigo fazer isto, porque meu despertar foi bem depois do astro-rei mostrar as caras. Pois hoje meu hífen chegou a machucar, tal qual alfinete de segurança espetando a carne. Estava jogada às traças, sem ter o que fazer, nenhum telefonema, a caixa de entrada vazia,o jornal sem novidades. Tadinha. Parecia que todo mundo tinha tomado chá de sumiço, ou estaria naquele bem bom das matinés vespertinas? Mas como não tenho inveja de ninguém e acho que cada um é feliz à sua maneira, recorri ao meu bloguizinho. Não é pra menos que o batizei "silêncio e liberdade". Quando escrevo, o faço para mim mesma. Esta é a verdade. Ter um blog é uma forma divertida de falar sozinha. Não é loucura , não. Desde o dia em que criei meu blog, percebo que não tenho muitos "comments". Talvez porque não faça divulgação e quem procura determinado assunto nestes sites, não quer nada com o "silêncio". Talvez "liberdade" poderia ser um foco mais atraente, mas como é no silêncio que tenho liberdade para extravasar minha alma e minhas emoções, vou deixando assim como está. Eu mesma leio e releio o que escrevo esporadicamente. Gosto disso. Meu blog não passa de uma hora extra de minha vida, dos meus amores, das minhas decepções, das lembranças de minha infância. Quem nunca brincou com um amigo imaginário? Meu blog é o amigo de mil e uma letras, com palavras e metáforas intencionais , às vezes confusas. Mas que me entende...

Friday, November 26, 2004

Não-coisa


O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes,
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas

invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos.

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa

sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa é fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.

FERREIRA GULLAR


Tuesday, November 23, 2004

Fugindo de mim

Uma sensação estranha tomou conta de mim, quando recebi a correspondência hoje pela manhã. Era um envelope amarelo, com letras garrafais a mim endereçado. Geralmente fico eufórica quando recebo cartas, pois tenho amigos e familiares espalhados pelos quatro ventos e as novidades são aguardadas ansiosamente. Receber cartas me dá mais satisfação do que receber e-mails, com algumas exceções. Mas hoje , embora já soubesse o teor da missiva, vacilei um pouco antes de cortar o envelope. Receava o quê? Defrontar-me novamente com a dona da história, personagem real que vivera uma grande tragédia, o maior drama de sua vida? Sabia que mais dia, menos dia, a decisão superior poderia alterar as acusações sofridas. Ah! se pudesse fugir de mim. Eu não era aquela outra e aquela outra tanto queria ser eu. Duas vidas que o destino tenta juntar numa só. Impossível esquecer, difícil acreditar. No coração pulsa uma esperança, nos olhos as lágrimas se confundem. O rosto amargo estampado na folha de jornal mais parece o fantasma da sombra que fui. O tempo desbotou imagens e emoções, mas o espelho da alma teima em refletir marcas cicatrizadas do outro eu em mim.

Tuesday, November 02, 2004

Cotiporã, um lugar bonito

Como a própria tradução do nome diz: coti = lugar, porã = bonito, Cotiporã tem belezas naturais imperdíveis. A exuberância da região reserva muitas surpresas para os visitantes.Pois foi este o lugar escolhido por Tony para festejar seus cinqüenta anos. Entre abraços, votos de saúde e felicidades, torcida organizada cantando o parabéns a você, o jovem aniversariante juntou o fôlego para apagar as velinhas da responsabilidade. Achei a idéia genial: convidar a família e os amigos mais chegados a se deslocarem dos confins do Rio Grande , para participarem da festa de meio século. Ao invés de receber presentes, Tony foi quem presenteou a todos os convidados com a bela festa no Hotel/Fazenda daquele paradisíaco recanto. Somados a isto tudo, não faltou o churrasco no capricho, a gauchada abrindo a gaita e soltando a voz no capricho, a "lora" correndo solta e animando toda gente. E não havia hora pra terminar a noitada. No outro dia, mais do que uma festa, o programa inesperado reuniu os convidados que mostraram suas qualidades nas cavalgadas pelos campos e colinas, sem deixar de conhecer o caudaloso rio das Antas, que podia proporcionar o rafting radical para quem se habilitasse. Ninguém teve coragem de encarar. Mas a trilha por entre a misteriosa mata, cheia de cobras, aranhas e obstáculos desafiadores foi programa certo. Quem foi, apreciou e curtiu o prgrama, voltou um bagaço. É preciso ter muito fôlego e gás pra agüentar quatro horas de adrenalina pura. Cavalgada, trilha e rafting num só dia é teste de resistência física pra ninguém botar defeito. Programa de aniversário nota dez.