Tuesday, November 23, 2004

Fugindo de mim

Uma sensação estranha tomou conta de mim, quando recebi a correspondência hoje pela manhã. Era um envelope amarelo, com letras garrafais a mim endereçado. Geralmente fico eufórica quando recebo cartas, pois tenho amigos e familiares espalhados pelos quatro ventos e as novidades são aguardadas ansiosamente. Receber cartas me dá mais satisfação do que receber e-mails, com algumas exceções. Mas hoje , embora já soubesse o teor da missiva, vacilei um pouco antes de cortar o envelope. Receava o quê? Defrontar-me novamente com a dona da história, personagem real que vivera uma grande tragédia, o maior drama de sua vida? Sabia que mais dia, menos dia, a decisão superior poderia alterar as acusações sofridas. Ah! se pudesse fugir de mim. Eu não era aquela outra e aquela outra tanto queria ser eu. Duas vidas que o destino tenta juntar numa só. Impossível esquecer, difícil acreditar. No coração pulsa uma esperança, nos olhos as lágrimas se confundem. O rosto amargo estampado na folha de jornal mais parece o fantasma da sombra que fui. O tempo desbotou imagens e emoções, mas o espelho da alma teima em refletir marcas cicatrizadas do outro eu em mim.

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