Thursday, July 01, 2004

CURANDO AS DORES DA ALMA

Nestas duas últimas semanas lavei minha alma. Estava triste,desanimada,sofrida e angustiada.Precisava desacelerar meu coração e acalmar minha mente.Precisava encontrar a tranqüilidade das montanhas e fugir das confusões do dia-a-dia.Precisava retirar a tensão dos meus músculos e nervos com a música tranqüila dos rios de águas constantes que vivem nas minhas lembranças.Precisava falar com um amigo leal, precisava afagar uma criança e mais de tudo,precisava escutar minha música preferida. Consegui tudo isto e estou feliz.Dei uma parada, silenciei e reiniciei uma nova música em minha vida.
Os oito anos de carinho de meu neto, os telefonemas doces da caçulinha e as confortadoras palavras da bela adolescente que cresce na florescência de sua idade de sonhos, foram um coral de vozes uníssonas e bem afinadas. Já me sentia com novas forças para prosseguir.Então chegaram os convites... Convites para assistir aos concertos da temporada musical do Portinho. Embora não recebidos pelo correio intergalático, considerei-os irrecusáveis.Nem imaginava poder escutar, ver e aplaudir, no Teatro da Ospa, um dos meus ídolos, maestro Isaac Karabtchevsky, regendo com energia contagiante a grande Sinfônica que executou a Nona, divinamente.Vinham do céu e das profundezas guturais dos integrantes do Coro as mais audaciosas modulações, expressas em nuances sonoras de grande sentimentalidade. Beethoven e sua imortal obra-prima.
Para amenizar o início da semana, o programa ficou mais light, quando música e humor vieram de mãos dadas para tirar os fantasmas do sério, numa festa de 20 anos do renovado Theatro São Pedro. Para quem se retraiu de freqüentar os grandes espetáculos da casa, em época de My Fair Lady, Hair, Piaff, Eu te Amo e outros mais, foi um prato pra pedir bis.Mesclando palco musical e teatral, viajei, melancolicamente pelo tempo.Admirei o enorme lustre de cristal que pendia da cúpula purpurina e comparei a semelhança do mesmo com outro. Onde é que foi mesmo? Eu estava em Londres assistindo “O Fantasma da Ópera”, quando subitamente, o lustre despencou sobre a platéia, para causar maior efeito dramático à cena. O espetáculo agradou e ficou em cartaz por muitos anos. E o gigantesco lustre, caindo, caindo,ficou na lembrança.Acordei de meus sonhos para aplaudir a Orquestra de Câmara. Rostos conhecidos na platéia, no palco, no foyer do Teatro. Música e teatro formam um belo par. Impossível deixar de gostar.
O fecho de ouro das minhas sentimentalidades aconteceu ontem à noite. Desta vez o convite era para vibrar com a música de Tchaikovsky, em seu Concerto nº1 para piano e orquestra.Meu ídolo fez a regência com a mesma precisão e firmeza. Ao piano,o jovem Alexandre Dossin- "who´s who na terra gaúcha"- deu os primeiros acordes. Não resisti às lágrimas. Era o que estava faltando para lavar minha alma.A decantada arte de Tchaikovsky não se restringe apenas a sua música, mas ao modo como demonstrou seu sofrimento e desespero emocional. Com grande sensibilidade e virtuosismo, Dossin enriqueceu e valorizou a obra executada, conseguindo espelhar a música de minha própria vida. Então parei e fiz uma pausa. Para iniciar um novo compasso em meu viver.

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