Monday, October 18, 2004

A rosa de meu jardim

Dizem que jardim com rosas é ultrapassado, brega, jardim de vovó, jardim de convento. Na verdade, jardim de rosas é mais antigo que se imagina. Na idade antiga, era símbolo do amor, da beleza na Grécia. Cultivei no jardim de minha casa uma roseira, presente que me foi dado num dia muito especial. Durante muitos anos a roseira ocupou lugar de destaque no canteiro central do terreno. Não sei porque razão ela nunca floresceu como era o esperado.Outras flores germinaram e se multiplicaram por entre as ramadas e os espinhos de seus galhos. Mas ela brotava sem graça e sem viço. Não sabia se a terra é que não era boa ou se faltava algum cuidado especial. O jardineiro responsável era displicente e não dava a menor atenção àquela que deveria ser a flor mais bela do jardim. Até quando precisaria esperar para vê-la brotar plenamente? Estava faltando a seiva vital para que tal acontecesse. O tempo foi passando, passando. Primaveras e verões se sucederam e a roseira, coitadinha, sem chance de desabrochar. Parecia uma planta atrofiada, mercê da sorte que o destino tão cruelmente lhe reservara. Um terrível acidente ecológico, no entanto, modificou a área física do terreno do meu jardim. Entre perdas e danos, restou a pobre roseira no quintal de minha casa. Mas nem tudo estava perdido. Num belo dia de sol, eis que a roseira floresceu, milagrosamente. Desabrochou para a vida, colorida, perfumada e radiante. Recebeu quem sabe a seiva vital que precisava. O mel de uma abelha polinizadora que pousava de flor em flor. Agora a rosa enfeita o jardim da minha existência. É uma rosa vermelha, da cor da paixão, carnuda, com pétalas que se abrem sem pudor, aguardando o calor dos raios de sol das tardes primaveris da nova estação.


Saturday, October 16, 2004

Esportes radicais

Minha amiga/irmã cismou de implicar com a limitação de certos programas para as pessoas depois dos trinta. Pra não dizer, quem já chegou na casa dos "enta". Imaginem só. E foi soltando o verbo, com este disparate : "É, Camininha, cada dia que passa nós temos mais restrições em nossos dias de Primavera. Devagarinho vamos deixando de ser atletas, e nossos programas precisam ser mais "light", porque estamos nos tornando mais frágeis. Estamos mais suscetíveis até às mordidas de um mosquitinho". Mas acrescentou sabiamente: "Graças a Deus e a alguma química, nossa cabeça fica cada vez melhor! Cada dia pensamos e resolvemos tudo da melhor maneira. Nosso coração pode ter problemas. Entretanto, vai ficando maior e conseqüentemente abriga mais amores e mais carinhos. Encontramos até alegria em rememorar que gostamos de comer amoras! É. Felizmente a idade não afetou a nossa memória: devemos lembrar, que quando formos comer pitangas, precisamos nos proteger... se existe sexo seguro, deve haver também uma maneira de se proteger contra os insetos que povoam os nossos dias de Primavera..." Não concordo com algumas afirmativas da Meg. Ela é um tanto pessimista com relação aos prazeres e grandes alegrias que a vida oferece em qualquer idade, por mais piegas que sejam. E se for para acolher carinhos, amores e novas emoções, Meg está deixando escapar por entre os dedos bons momentos para ser feliz. Apesar de tudo, não deixarei que os "simples insetos"estraguem meu programa primaveril...

Thursday, October 14, 2004

Ora, pitangas...

Meg é leitora assídua de minhas escrivinhações. Em outros tempos, quando ousava publicar meus textos semanalmente no jornal de "minha santinha", ela era a primeira pessoa que me ligava para fazer o comentário. Não que fosse uma expert literária, mas tinha sensibilidade suficiente para interpretar meus escritos com comentários inteligentes e por vezes jocosos. Talvez porque nossa amizade vem de longa data e a convivência nos fez mais amigas, quase irmãs. Achei interessante enviar a ela o texto do meu Blog - fora da berlinda para internautas curiosos, pois não me atrevo a divulgar meus mais íntimos pensares - com raríssima exceção), e ainda acrescentei que no passeio ao sítio das amoras, alguns insetos até agora não identificados, me picaram vorazmente. Tanto que hoje vou ao dermatologista para conferir o estrago. Meg surpreendeu-me com este sucinto mail:

"...pena que, sempre que, são as tias que vão lá, os insetos ficam bem assanhados e atacam! Na terça, eu e o jardineiro que estava cortando a grama (eu estava comendo mais amoras *loucamente*), fomos atacados por abelhas e tivemos que dar no pé!!! Levei umas picadas, mas não deu em nada, Mas... as amoras!!! dois dias seguidos de exagero, queimaram a minha boca! Foi muito ácido! Estou com os lábios e a gengiva bem queimados e inchados. As tuas picadinhas fazem parte do cenário bucólico! Devemos nos prevenir da próxima vez. Repelentes ou talvez mais * charmy* : tochas de Fumeta! Qué,qué ,qué...Gostei do texto! Já enviei pra Vivian". (Filha da Meg que mora em Taipé). "Ela gosta de saber o que nós aprontamos!Saudações carinhosas, da Meg.PS. Nossa próxima excursão será para comer pitangas!(Sem picadinhas). Avisarei..."

Pois é, um convite como este é irrecusável. Estou torcendo para que as frutinhas capitosas amadurem rapidamente. Oxalá não precisemos chorar as pitangas por picadas indesejáveis...





Tuesday, October 12, 2004

Amoras de minha infância

Fugimos do burburinho da cidade , minha amiga Meg e eu, em direção ao sítio que lhe coube como herança de seu amado "comandante". O dia está agradável e a brisa suave mostra a cara da estação primaveril que recém desperta com seu alvores e matizes. O sítio fica bem perto da minha cidade, que em outros tempos eu chamava carinhosamente "minha santinha". Canteiros floridos junto à BR, ladeando o Distrito Industrial, são um cartão de visitas para os turistas que visitam a city durante a semana da Oktoberfest. O cenário rude do monumental maquinário das fábricas, que enriquecem a região com seu contínuo vai-e-vem, ganhou nova vida. Como tudo ficou diferente!Acho que mudou para melhor.
Saímos da estrada principal. O carro segue lentamente e entre risos e desvios do trecho esburacado em frente, cortamos a picada empoeirada para chegarmos ao sítio. O portão de toras primitivas abre-se facilmente. O chateau antigo e rústico está interditado, pois abelhas invadiram todo seu interior, impedindo a entrada de quem quer que seja, até que o caseiro faça a dedetização indicada para estes casos. Quem se arriscaria a entrar nesta colmeia agitada e mortífera, embora doce e saudável? O que fazemos então? Meg, muito afoita, decide andar pelo sítio, contornando o enorme açude até o riacho que está lá no fundo do campo. A relva rasteira, pipocada por flores multicoloridas forma um tapete macio e aveludado. A natureza aqui é pródiga. Lá no fundo uma amoreira carregada de frutas pretas e madurinhas chama nossa atenção. São amoras. Amoras? Num salto, nós duas descemos do carro e em disparada nos atracamos a comer as amoras. Voltamos ao tempo de nossa infância quando devorávamos amoras dizendo umas às outras: "Tu gosta de amora? Vou contá pro teu pai que tu namora". Que brincadeira mais sem graça! Em outros tempos era assim que a gente se divertia. Era bem engraçado pois fazia-se corrida pra ver quem conseguia comer mais frutinhas. Dentes, boca, língua, mãos e dedos ficavam pretos ou roxos. A gente se transformava em legítimos monstros azulados. Depois desta fartura de amoras, Meg e eu saímos do sítio como tais. Voltamos a ser crianças. E foi bom, pois era justamente o Dia das Crianças. Oxalá todas as pessoas conservassem um pouco da criança que já foram um dia.

Tuesday, October 05, 2004

Ao pé da orelha

Você queria me falar ao pé da orelha. Fiquei curiosa, pois parecia que segredinhos você ia me contar. Sem se anunciar, chegou pra mim e abriu seu coração. Da mesma forma como eu lhe fiz um dia, lembra?
E é assim que a gente começa a se entender. Primeiro você aprende meus macetes e minhas manhas, depois seu jeito moleque e brincalhão me cativa, e mais tarde você me dá força e eu deito minha cabeça em seu ombro forte, especialmente quando me sinto tão só, sem ninguém pra conversar, quando só as paredes escutam meu coração falar. Amigo, parceiro, incentivador das difíceis jogadas, chegue mais pertinho de mim e diga o que lhe aflige. Na base da confiança, você liberta o que está preso no seu peito, deixando que eu faça a leitura das páginas de sua vida. Sua história não me surpreende tanto. Sempre existem semelhanças no viver de duas pessoas. Um homem e uma mulher, quer queiram quer não, se completam no querer, querendo ou no querer, não querendo. Deu pra entender? A busca dos sonhos ficou pelos caminhos, os projetos vitais perderam o encanto. Teriam sido mal elaborados ou não tiveram a devida atenção quando iniciados? Deixemos o que passou e não deu certo pra trás. Fale de novo ao pé da minha orelha... Quando você fala tão pertinho, seu tom de voz grave é um sussurro morno que penetra em mim e me dá arrepios. Sensação gostosa!